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Herrus dos cidadões

por MC, em 30.06.15

 

As pessoas que cuidam que hoje em dia a escolaridade é madraça e facilitista e que “no seu tempo é que era” não podiam estar mais longe da verdade. Basta que duas ou três alminhas se juntem à mesa de um café, numa paragem de autocarro ou fila do supermercado, para que, em a conversa versando a educação, comece o rosário cantado dos belos tempos da sua “instrução primária”: todos lembram com saudade lacrimosa o rigoroso debitar das dinastias, a enunciação firme e determinada dos rios e afluentes, distritos e concelhos, a descriminação aturada de linhas, estações e apeadeiros dos caminhos-de-ferro, as sessões solenes de reprodução fiel de preposições, pronomes e advérbios, a severidade dos ditados e a crueza dos castigos.

Agora os miúdos não sabem nada, diz-se. Vale mais uma quarta classe “daquele tempo” do que o nono ano agora, defende-se a pés juntos. Alambazamo-nos de galhofas em reality shows, discursos políticos, debates televisivos e outros enquadramentos mediáticos onde figuras públicas arremessam calinadas de todos os tipos; apontamos exemplos caricatos de pessoas “famosas” que perversamente o são tão-somente porque debitam asneiras como perdigotos - e vamos contribuindo para a validação do paradigma.   

Contudo, as razões que propiciaram a disseminação nas últimas décadas deste pouco contestado mito urbano (também eu quero usar a terminologia da moda) devem muito pouco ao facilitismo da vida académica.

Qualquer pai ou mãe que tente acompanhar / ajudar um jovem aluno desde os primeiros anos da sua escolaridade sabe do que falo. Porque já enfrentou (aposto que ingloriamente muitas das vezes) conteúdos de complexidade sinuosa, vertidos em programas extensíssimos e frequentemente inexequíveis, enunciados mediante um acordo ortográfico controverso e falacioso. A bem da verdade, nenhuma das gerações anteriores enfrentou cargas horárias e currículos escolares tão pesados quanto os que estiveram /estão em vigor nos últimos anos.

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publicado às 21:38

O Terrível

por MC, em 20.06.15

 

O Ivan entrou na sala chamando a si todos os holofotes, como sempre faz: a porta aberta de rompante, as cabeças a virarem-se, o discurso interrompido do professor. Caminha bamboleante e desarticulado, os ombros puxados à frente, como se fosse defender-se de um golpe a qualquer instante. A camisola de mangas à cava, de um vermelho puído, demasiado grande para o seu corpo de rapazelho franzino, espicha nas pontas com os vincos das molas do estendal. Nas sapatilhas, uma arrojada combinação de cores berrantes que atrairia todas as atenções, não fora o cheiro pestilento a peúgas em decomposição que delas voluteava a roubar para si todo o protagonismo.

Arrastou a cadeira teatral e ruidosamente e sentou-se de viés, com as pernas esticadas e afastadas, um braço apoiado no encosto da cadeira demasiado pequena, numa pose descontraída de esplanada. ‘Qué que foi?’, lançou para a plateia, a curva da sobrancelha levantada, os lábios arrepanhados a um canto num sorrisinho pretensamente sarcástico.

Na frente da sala, o professor, perdida a linha de raciocínio, apercebe-se do braço imóvel a caminho do quadro e deixa-o repousar ao longo do corpo. Os seus olhos cruzam-se com os do Ivan, como num duelo ao entardecer. A cena não é nova, é recorrente e cansativa.

Desde que começou o ano escolar, o Ivan já recebeu todos os castigos que a escola tem para comportamentos como o dele. Já ouviu repreensões de todos os professores, da directora de turma, do director da escola; já foi expulso da sala em todas as disciplinas, já foi castigado com tarefas na escola, já foi suspenso três vezes: primeiro um dia, logo em Outubro, depois três no segundo período e finalmente oito dias. Nenhum destes castigos o incomodou, assim como lhe será completamente indiferente o que o professor lhe disser ou fizer agora. Todos naquela sala, todos naquela escola, sabem disso. O Ivan tem dezasseis anos e está, pela terceira vez, no sétimo ano. Também reprovou uma vez no quarto, outra no quinto.

Não há nada na escola que o Ivan valorize. Não conhece ninguém para quem a escola tivesse sido uma mais-valia. Não consegue lembrar-se de uma pessoa – nem umazinha - cujo sucesso na vida admire ou cobice e que tenha tido o percurso escolar como ponto de partida. Acalenta secretamente o sonho de ser rico e famoso, de preferência antes dos vinte. Não sabe ainda bem como vai conseguir tal proeza, mas imagina-se a passear-se pelo bairro, em noite quente de arraial, a cumprimentar vizinhos e conhecidos que lhe dão palmadinhas nas costas e a quem paga cervejas e caracóis e frangos assados, como o primo Edgar, que cedo deixou a escola (lá está!) e foi trabalhar de servente de pedreiro para a França, de onde volta a cada a verão, a transpirar ‘eurrôs’ por todos os poros.

O Ivan não sabe como vai conseguir concretizar os seus sonhos, mas tem a certeza que o caminho para o futuro farto que ambiciona para si não passa pela escola. Também não sabe como irá o professor reagir desta vez, mas o descaso empossa-o de uma exaltação libertadora de super-herói: ainda o professor não esboçou um gesto e já o Ivan agita no ar os braços, brindando o respeitável público com dois portentosos piretes.

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publicado às 00:57

Olhar

por MC, em 12.06.15

A primeira vez que ouviu a pergunta, a criança ficou embatucada. Estavam na saleta ao lado do claustro, onde todas as tardes a Irmã Adelaide supervisionava aquilo a que bondosamente intitulava “os lavores”. Os deditos desastrados lá iam empurrando agulhas rombas por entre os furinhos das cartolinas coloridas, quando, num repente, a Irmã lançou a polémica: ‘então e o que é que os meninos vão querer ser, quando crescerem?’

A criança não sabia que era suposto ‘ser-se’ alguma coisa. Envergonhou-se silenciosamente pela sua ignorância quando percebeu que muitos dos meninos não só tinham uma opinião abalizada sobre o assunto, como se apressaram a aventar mais do que uma possibilidade. Sentiu-se encharcar numa chuva de polícias, médicos, hospedeiras, astronautas, bombeiros - tantas, tantas coisas que os meninos queriam ser!

A criança, aturdida pela surpresa, quedou-se invisível, colada à cadeira, a matutar nas possibilidades. “Tu não dizes nada?”, perguntou-lhe a amiga Anabela num sussurro soprado por entre os caracóis desordenados. Fez que não com a cabeça, num gesto quase imperceptível. “Diz uma coisa qualquer”, desembaraçou a Anabela, com um sorriso encorajador. A partir desse dia, mais ninguém pilhou a criança desprevenida no que àquele assunto dizia respeito. Tinha sempre uma ou duas respostas engatilhadas que faziam feliz o mais auspicioso dos adultos.

Mas o que nunca conseguiu perguntar a ninguém, porque conhecia a zombaria bem-intencionada com que os adultos respondiam às tontices das crianças, era por que razão tinha de ‘ser’ alguma coisa. Porque não podia somente observar, do alto do seu banco, à janela de guilhotina, o formigar rotineiro das pessoas na rua, o metabolismo colorido da vizinhança, a alternância das estações. Porque não era função valorosa ficar apenas à soleira da velha casa de pedra, onde ao serão a avó Maria eternizava histórias do seu passado. Porque não podia apenas quedar-se na cozinha grande da tia Cila, onde as vozes baixas das mulheres se misturavam com o aroma dos temperos beirãos e o vapor da canja de galinha velha lhe ensopava a alma com um conforto indestrutível.

A sua infância morreu um bocadinho no dia em que compreendeu, embora nunca o tenha perguntado, que apenas ‘ver’ nunca seria tarefa de reconhecido mérito.

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publicado às 00:34

Sem palavras

por MC, em 09.06.15

 

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publicado às 22:23

Caracóis

por MC, em 06.06.15

 

A menina Isabelinha terminou de colocar o fecho no vestido da freguesa, tirou os alinhavos, fez uma vistoria final, praticamente desnecessária, porque a menina Isabelinha era muito perfeitinha, e olhou lá para fora. O movimento era pouco, algumas pessoas vagueavam frente às lojas e os escassos clientes do supermercado apressavam-se a ir preparar o jantar. 

Faltava mais de meia hora para o encerramento do Cantinho da Costura e a menina Isabelinha ligou sorrateiramente o telemóvel por baixo da bancada e foi dar uma olhadinha no seu facebook. A sua amiga Shirlei, que descobria sempre as novidades mais engraçadas, tinha lá na sua página uma coisa extraordinária sobre caracóis. A menina Isabelinha descobriu, abismada, que havia um grupo de pessoas que defendia fervorosamente os direitos dos caracóis. Leu tudo, num misto de incredulidade e riso controlado - que o seu subconsciente, mesmo distraido, estava sempre atento à chegada inopinada da patroa. 

Mas achou tão patusca aquela situação, que por duas ou três vezes não conteve uma gargalhadita marota. De repente parou de rir e sobressaltou-se. A menina Isabelinha era adepta fervorosa de um fim de tarde bem passado, que incluisse um pires de caracóis e uma cerveja fresquinha. Que é lá isso de não se comer caracóis? E que diabo, com tantos bichos comestíveis e tão maiores que os caraçóis, porque se lembraram precisamente deles os amigos dos animais?  Ena pá! Querem lá ver que a coisa não tem a ver com tamanho? Quanto mais matutava, mais cuidava que isto ainda podia ser uma ideia perigosa. Se a coisa pega, cismou, daqui até à criminalização do mata-moscas ou mesmo à abolição do antibiótico vai a distância um fósforo. 

Depois leu mais um pouco e o seu coraçãozinho apaziguou-se. As reacções e comentários eram uma galhofa pegada. As piadolas multiplicavam-se, das claramente inofensivas às mais ordinaronas. 

Cogitou por mais uns instantes e veio-lhe à ideia, nem sabia bem porque, aquele caso há uns tempos em que um cão matou um bebé. Lembrou-se de ter lido e visto mais de cento e vinte sete testemunhos de pessoas que defendiam os direitos do Zico e criticavam ferozmente o seu abate. Sobre a criança não se lembrava de ter lido grande coisa. Também não se recordava do seu nome. 

A menina Isabelinha tinha a noção de que não era a mais inteligente das pessoas, muito pelo contrário: as mais das vezes achava-se muito estúpida, e punha sempre, mas sempre, a hipótese de não estar a ver bem as coisas. Mas sempre que se deparava com questões como esta dos caracóis, a menina Isabelinha perguntava-se se o maior problema das causas não seriam os seus defensores. 

 

 

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publicado às 17:17

Telescópio

por MC, em 03.06.15

 

A menina Isabelinha olhou com ansiedade para o relógio de pulso, para verificar, mais uma vez, que a sua hora de almoço estava quase a acabar. Hora de almoço era maneira de dizer, que a hora de almoço da menina Isabelinha raramente ultrapassava os quarenta minutos, quarenta e cinco em dias muito bons. Na verdade, a menina Isabelinha nada podia afirmar em relação às outras pessoas, mas tinha a mais absoluta certeza que, no que lhe dizia respeito, as horas não tinham todas sessenta minutos, conforme a sua professora Cecília tantas vezes insistira. Só assim se poderia explicar a forma maldosa como a última hora do seu turno conseguia surripiar para si os minutos sistematicamente desaparecidos da hora do almoço. Adiante.

Olhou para a montra da tabacaria e não resistiu a entrar. Cumprimentou a funcionária, brasileira pequenina, generosa de carnes e de coração. ‘Vou só ver as novidades, tá bem, Shirlei?’ disse, acenando na direcção das revistas. A perdição da menina Isabelinha eram as revistas do social. Gostava de ver pessoas bonitas, endinheiradas e de vidas perfeitas. Gostava de saber onde iam, o que vestiam e onde viviam estas pessoas tão longínquas e tão luminosas. Observava-as assim, à distância imensurável de simples folhas de papel, com a curiosidade de uma criança que observa as constelações com o seu primeiro telescópio.

Voltou a olhar para o relógio. Suspirou e encaminhou-se com ar resignado para o Cantinho da Costura. A patroa não tardava e as bainhas não se faziam sozinhas.  

 

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publicado às 23:43


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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